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João Pedro Stédile alerta para o uso abusivo de agrotóxicos no campo

noticias :: Por Editor em 24/05/2010 :: imprimir   pdf   enviar   celular


João Pedro Stédile alerta para o uso abusivo de agrotóxicos no campo: Stédile: Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos
Créditos: AgBr
O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, alertou no dia 21 de maio de 2010, ao participar da 9ª Jornada de Agroecologia, que o uso de agrotóxicos na agricultura faz do Brasil o primeiro consumidor mundial desses produtos químicos usados para combater pragas ou para o preparo do solo.



Para ele, a agricultura brasileira vive um período histórico muito complexo. "Estão em disputa, diariamente, duas grandes propostas, a do agronegócio e outra da agroecologia." Segundo Stédile, o país consome anualmente 720 milhões de litros de agrotóxicos que contaminam a natureza.

"Na semana passada, o Sindicato dos Fabricantes de Defensivos Agrícolas, que representa dez empresas – nove multinacionais e uma brasileira – anunciou que, na safra do ano passado, foram comercializados 1 bilhão de litros", disse. Stédile comentou sobre os riscos do uso desse produtos. "É preciso que a população saiba que todo esse veneno é de origem química, não é biodegradável, contamina o solo, a água, depois atinge o organismo do homem e a consequência, todos nós já sabemos, é, provavelmente, um câncer", observou.

O coordenador do MST adiantou que a Via Campesina vai realizar, em julho, um seminário nacional que reunirá representantes dos movimentos sociais, do governo, de uma rede de estudos de toxicologia, de hospitais, do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e de cientistas. O objetivo é organizar uma campanha contra o uso indiscriminado de agrotóxicos.

Stédile disse que são encontros como a Jornada de Agroecologia, que reúne 3 mil participantes, que fortalecem o modelo desse sistema agrícola que preconiza o uso de defensivos naturais. "Alguns movimentos chamam de reforma agrária popular, outros de plano camponês, agricultura familiar, mas a característica é a mesma. Ao invés da monocultura, prioriza a agricultura diversificada, que respeita a biodiversidade", explicou.

Ele visitou as oficinas temáticas que estão sendo realizadas no local do encontro e se disse satisfeito com a disseminação do conhecimento cientifico nos movimentos sociais, com a troca de experiências do que cada um está realizando em sua lavoura. Aos participantes do evento, Stédile disse que, em sua opinião, nunca houve reforma agrária no Brasil. "Nunca conseguimos um programa de governo que consiga, de forma rápida, desapropriar grandes latifúndios improdutivos. O que há, no Brasil, é uma política de assentamentos."

As áreas, segundo ele, são desapropriadas à medida que os trabalhadores fazem pressão. "Seiscentas mil famílias conquistaram áreas de terra, nos últimos 25 anos. Existem 4 milhões de famílias sem-terra no Brasil. Poderíamos resolver o problema da reforma agrária afetando pouquíssimas propriedades", argumentou. De acordo com Stédile, existem 15 mil fazendeiros proprietários de terras com áreas superiores a 2 mil hectares . "Juntos, eles são proprietários de 98 milhões de hectares. Para assentar as 4 milhões de famílias, precisamos desapropriar apenas 4 mil fazendeiros."

AGRICULTORES FAMILIARES REAFIRMAM COMPROMISSO COM PRODUÇÃO LIVRE DE TRANSGÊNICOS

Os 3 mil agricultores que se reuniram durante quatro dias na 9ª Jornada de Agroecologia, em Francisco Beltrão, sudoeste do Paraná, divulgaram no encerramento do encontro carta-documento reafirmando o compromisso com o modelo agroecológico que defende o cuidado com a terra e a biodiversidade para colher "soberania alimentar". Eles se comprometem ainda a lutar por uma produção livre de transgênicos e sem agrotóxicos e por um projeto popular e soberano para a agricultura.

"A soberania alimentar do Brasil segue sendo resultado do trabalho da agricultura familiar camponesa, historicamente responsável por 70% do abastecimento da população e pela geração de grandes excedentes de alimentos exportados. Essa mesma agricultura familiar camponesa gera mais postos de trabalho no campo, mesmo preservando uma área de florestas maior que o latifúndio e usando uma área 200% menor que o agronegócio", diz o documento.

A carta responsabiliza o agronegócio por uma série de fatores prejudicais à agricultura. Segundo o documento, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo por causa do agronegócio. A carta diz que foram usados cerca de 790 milhões de litros de agrotóxicos na safra de 2008/2009, o que corresponde a mais de 3 litros por habitante no país. Além disso, afirmam os agricultores, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) tornou-se um balcão de negócios das empresas, liberando transgênicos sem qualquer rigor científico e desconsiderando o princípio da precaução.

O documento final do encontro reclama ainda do bloqueio que a chamada bancada ruralista e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) fazem há mais de seis anos ao Projeto de Emenda à Constituição (PEC) 438, que propõe medidas de combate ao trabalho escravo no campo, entre elas a expropriação de propriedades que usam mão de obra escrava.

Outra denúncia é da contaminação genética das variedades de milho crioulo, convencional e agroecológico pelo milho transgênico, que, segundo a carta, foi constatada por pesquisa da Secretaria da Agricultura do Paraná, "o que comprova a ineficácia da norma editada pela CTNBio e a impossibilidade de coexistência dessa tecnologia com outros sistemas produtivos".

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) comprometeu-se com os participantes da Jornada a transformar os mais de 400 mil hectares reformados no Paraná em terras de produção agroecológica, seja por meio de assistência técnica especializada.

A agroecologia faz parte da política de desenvolvimento dos projetos de reforma agrária conduzidos pelo Incra, diz o superintendente da autarquia no Paraná, Nilton Bezerra Guedes. "A proposta é que os assentamentos sejam centros de produção agroecológica", afirmou.

O assentado Antônio Rodrigues de Mello, de 53 anos, disse que participou de todas as jornadas anteriores e que levou tudo o que aprendeu para as 107 famílias do assentamento de Diamante do Oeste. "Desde 2003 no nosso assentamento defendemos a agroecologia, embora seja ainda difícil convencer os mais antigos. No início, eles não acreditavam que dava pra plantar sem usar veneno."

Segundo Mello, as jornadas são boas porque mostram aos agricultores práticas que dão e não usam agrotóxicos. "Assim, ficamos livres da dependência de produtos comercializados por grandes empresas."

Para ele, a agroecologia é uma proposta de saúde. "Não adianta usar veneno para plantar e usar veneno para tratar a nossa saúde. Usamos a medicina alternativa, com remédios caseiros e homeopatia."

FONTE

Agência Brasil
Lúcia Nórcio - Enviada espercial
Lana Cristina - Edição

Links referenciados

Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
www.incra.gov.br

Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil
www.canaldoprodutor.com.br

Comissão Técnica Nacional de Biossegurança
www.ctnbio.gov.br

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
www.mst.org.br

Instituto Nacional de Câncer
www.inca.gov.br

Agência Brasil
www.agenciabrasil.gov.br

Via Campesina
viacampesina.org/main_en/index.php

CTNBio
www.ctnbio.gov.br

MST
www.mst.org.br

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