O Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do mundo e representa 16% da sua venda mundial. Em 2009, foram vendidas aqui 780 mil toneladas, com um faturamento estimado da ordem de 8 bilhões de dólares. Ao longo dos últimos 10 anos, na esteira do crescimento do agronegócio, esse mercado cresceu 176%, quase quatro vezes mais que a média mundial, e as importações brasileiras desses produtos aumentaram 236% entre 2000 e 2007. As 10 maiores empresas do setor de agrotóxicos do mundo concentram mais de 80% das vendas no país.
Esses produtores viram ameaçadas suas novas metas de faturamento com o anúncio da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de que se propõe a reavaliar o uso de 13 produtos agrotóxicos, vários deles já proibidos há anos nos EUA, na
União Europeia, e em países como Argentina, Nigéria, Senegal, Mauritânia, entre outros, como o acefato e o endossulfam. Os motivos dessa proibição são evidentes, a contaminação de alimentos, de trabalhadores rurais, e do meio ambiente, causando, literalmente, o envenenamento dos consumidores, a morte de trabalhadores rurais e a destruição da vida animal e vegetal.
Em solicitação ao Ministério Público para a proibição de um desses agrotóxicos - o Tamaron - os então deputados federais Fernando Dantas Ferro, Adão Preto e Miguel Rosseto denunciam que 5 mil trabalhadores rurais morrem, a cada ano, intoxicados por venenos agrícolas, sendo que muitos mais são afetados de maneira grave pela ingestão dos componentes químicos desses produtos.
Frente à disposição da
Anvisa de reavaliar produtos como Gramoxone, Paraquat, Tamaron, Mancozeb, Monocrotfos, Folidol, Malation e Decis, o
Sindag -
Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola - recorreu ao Judiciário, solicitando que não sejam publicados os resultados das reavaliações. Houve mesmo iniciativas no Judiciário que pretendiam proibir os estudos da
Anvisa que verificavam a segurança das substâncias de 99 agrotóxicos.
O fato é que o setor ruralista, com o Ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes à frente, a bancada ruralista e os fabricantes de agrotóxicos se puseram a campo contra a iniciativa da
Anvisa, e mesmo contra a própria
Anvisa e o seu papel fiscalizador. Segundo documento obtido pela
ABRANDH -
Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanos, o
Ministério da Agricultura quer ser o responsável pela avaliação e registro dos produtos agrotóxicos.
Para Rosany Bochner, especialista em toxicologia da
Fiocruz, instituição parceira da
Anvisa no trabalho de reavaliação dos agrotóxicos, "o Brasil está virando um grande depósito de porcarias. Os agrotóxicos que as empresas não conseguem vender lá fora, que têm indicativo de problemas, são empurrados para a gente"(1).
Em 2002, com o início do funcionamento do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, coordenado pela
Anvisa, surgiram informações preocupantes. Das 1.198 amostras recolhidas em nível nacional, 17,28% apresentavam índices de contaminação acima do permitido para se preservar a saúde. O tomate, o morango e a alface são os mais contaminados. Se você come amendoim, batata, brócolis, citros, couve, couve-flor, feijão, melão, pimentão, repolho, entre outros alimentos, cuidado! Eles contêm acefato, um agrotóxico que pode causar danos ao cérebro e ao sistema nervoso e provocar câncer no longo prazo. O acefato é proibido em toda a
União Europeia.
Segundo o
Idec -
Instituto de Defesa do Consumidor - "o consumidor brasileiro está exposto a um risco sanitário inaceitável, que exige medidas rigorosas dos órgãos governamentais responsáveis, inclusive com a punição dos infratores".
Essa denúncia decorre do levantamento e análise da
Anvisa, feito de junho de 2001 a junho de 2002, onde nada menos que 81,2% das amostras analisadas (1051 casos) exibiam resíduos de agrotóxicos e 22,17% apresentavam índices que ultrapassavam os limites máximos permitidos.
Atualmente os agrotóxicos estão em reavaliação tanto pela
Anvisa, quanto pelos Ministérios da Saúde e Meio Ambiente. E espera-se que até o final do ano [2010] seja divulgada uma nova lista dos agrotóxicos que podem continuar sendo vendidos e os que serão banidos do território brasileiro.
Ainda não existe uma ação integrada desses organismos públicos responsáveis por essa tarefa de fiscalização, mas segundo Agenor Álvares, diretor da
Anvisa, a integração é algo indispensável, até para enfrentar a proposta do setor ruralista, que é inaceitável.
(1) Nota: Jornal Folha de São Paulo de 17/07/2008.
AUTORIA
Silvio Caccia Bava
Editor de
Le Monde Diplomatique Brasil
Coordenador geral do
Instituto Pólis
Links referenciados
Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícolawww.sindag.com.br
Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanoswww.abrandh.org.br
Agência Nacional de Vigilância Sanitáriawww.anvisa.gov.br
Instituto de Defesa do Consumidorwww.idec.org.br
Ministério da Agriculturawww.agricultura.gov.br
Le Monde Diplomatiquewww.diplomatique.org.br
Folha de São Paulowww1.folha.uol.com.br/fsp
Instituto Póliswww.polis.org.br
União Europeiaeuropa.eu/index_pt.htm
ABRANDHwww.abrandh.org.br
Fiocruzwww.fiocruz.br
Anvisawww.anvisa.gov.br
Sindagwww.sindag.com.br
Idecwww.idec.org.br
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