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A vida, os discursos e os clássicos

artigos :: Por Editor em 27/01/2010 :: imprimir   pdf   enviar   celular

Uma das mudanças mais significativas que a cultura massiva e a velocidade da vida cotidiana atual impõem é a redução do tempo que as pessoas têm para se informarem sobre cada coisa do mundo. O tempo é cada vez mais escasso para aprofundar um tema, diante das inúmeras atividades da vida no concerto com as múltiplas atividades e ofertas simbólicas. Os meios de comunicação são dispositivos especialistas em ofertar produtos frescos para este perfil de consumo ligeiro e superficial sobre os fatos. Não há como saber muito de tudo.



Por isso, o homem contemporâneo é como que condicionado a sobreviver dessa visão superficial e ampla dos fatos. Ao ter a quantidade, ele perde a profundidade sobre as mais variadas faces das coisas, suas razões e histórias. Com essa base de saber indispensável, o homem toma posição, pois é constantemente cobrado seu posicionamento a respeito das coisas, como um valor que o diferencia e inclui no mundo.

Aparece, então, uma outra faceta humana interessante: a polarização, pois é próprio do seu comportamento guardar e defender posições. A dicotomia acesa pelo antagonismo, nesse caso, é inevitável. Formam-se correntes que atacam e outras que defendem e, geralmente, vive-se como se, diante dos fatos, houvesse apenas dois lados. Um lado bom e um lado ruim, um certo e outro errado. Curiosamente, o lado bom é aquele que defendemos e, o ruim, o outro lado. Nos encarregamos, com o tempo, de encontrar todas as justificativas possíveis para defender o que nos parece certo e justo, ao mesmo tempo que juntamos todas as pedras para atirar no outro lado.

Na sociedade de consumo da ordem do capital, a norma é a disputa, por espaço, emprego, renda, parceiros(as), bens físicos e simbólicos. As livrarias dos aeroportos estão cheias de livros recém tintados sobre como "vencer" no competitivo mundo social e empresarial. Neste ambiente de guerra subjetiva, a felicidade maior é saber que o outro foi preterido, que o adversário perdeu o jogo, que se encontra arrasado.

Acontece que, normalmente, os sujeitos partem de bases diferentes para sustentar e manter suas posições. Cada pessoa observa e recolhe, do cotidiano, elementos favoráveis para o embate. Capta partes dos objetos (do que quer ver), eis que precisa de um consumo imediato, de acordo com os seus interesses. A língua, neste caso, pode trair a discursividade, porque se imagina que se trate da mesma coisa, mas não o é, porque são acionadas partes diferentes do objeto de nossa atenção. Por isso o ajuste é algo bastante improvável, ou muito distante, infinito mesmo.

Na prática, o pensamento segmentado leva a que a razão das contendas seja o que menos importa, eis que a disputa já a colocou sob júdice antecipado, alimentado por questões que o contendor está disposto a apresentar na esfera de discussão e por outras que deseja obscurecer. Por isso, ele retoma sempre ao mesmo ponto, num arranjo retórico que não sai da trincheira do mesmo argumento. Um discurso chato, que não avança. Isso acontece em qualquer lado, pois não é de ordem racional.

Assim são alimentadas as guerras de todo tipo, disputas intermináveis que destroem, alastram dor e alimentam ainda mais ódio. Afinal, sempre que uma posição passa a ser defendida aos limites últimos, é praticamente impossível que haja harmonia e consenso por várias gerações. Nada mais resta na mesa para ser negociado porque as interpretações para os fatos são diferentes. Quem ouve os lados com certa isenção conclui facilmente que ambos tem razão. E tem mesmo. Mas isso já não importa, porque na vida parece que sempre é dia de clássico e, por muito pouco, começa-se uma guerra.

AUTORIA

Antonio Heberlê
Jornalista
Pesquisador da Embrapa Clima Temperado
Professor da Universidade Católica de Pelotas

Links referenciados

Universidade Católica de Pelotas
www.ucpel.tche.br

Embrapa Clima Temperado
www.cpact.embrapa.br

Antonio Heberlê
buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visual
izacv.jsp?id=K4785994T6

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