O diretor de British Petroleum (BP), Philip New, em recente entrevista ao jornal alemão Berliner Zeitung, desmistifica a questão do avanço dos biocombustíveis em relação a um suposto aumento da fome mundial. No relato ao jornalista Jakok Schlandt, o executivo de uma das maiores empresas do setor energético do planeta fala em especial do etanol brasileiro, produzido a partir da cana-de-açúcar. Confira.
Os biocombustíveis despertaram grande controvérsia: alguns acreditam que seja a salvação para o clima, outros apontam como responsável pela crescente fome no mundo. Qual será o futuro papel dos biocombustíveis?
Philip New: Será fundamental. Estima-se que em 2030, 11 a 19% das nossas necessidades energéticas no transporte rodoviário sejam cobertas pelos biocombustíveis. Caso o desenvolvimento seja ainda maior, a BP acredita que estes números cheguem a 30%.
Isso corresponderia a um aumento drástico de consumo em torno de 3% ao ano. Como isso pode funcionar?
Philip New: Através do aumento da eficiência energética. Quando se produz etanol a partir de cereais, ou mesmo biodiesel a partir de oleaginosas como na Alemanha, o rendimento é modesto, mesmo que a produção na Alemanha garanta a sustentabilidade e condições favoráveis à natureza e trabalhador. Entretanto, o setor do etanol no Brasil é uma indústria muito mais eficiente e sustentável, porque existe um ciclo energético fechado.
Poderia esclarecer melhor isto?
Philip New: A cana-de-açúcar é moída, o caldo obtido (garapa), depois é fermentado e destilado para se obter o etanol. Os resíduos sólidos servem para aquecer as refinarias e centrais, bem como para adubar as terras. A água utilizada é água pluvial. O potencial para melhorar esses processos ainda é grande. Primeiro, o rendimento pode ser aumentado, tanto no plantio quanto no aproveitamento da cana. Segundo, a qualidade do combustível ainda pode ser melhorada, ou seja, produzir biobutanol em vez do etanol, uma forma com cadeias moleculares mais longas.
Qual seria o benefício?
Philip New: A vantagem é que todos os motores de gasolina aguentam melhor o biobutanol. Além disso, a densidade energética de butanol é maior, isto é, anda-se mais com a mesma quantidade de combustível. Um outro fator é que se pode recorrer à infraestrutura existente, como os dutos.
Quanto desta tecnologia está suficientemente madura e disponível?
Philip New: Junto com nosso parceiro, a DuPont, trabalhamos no desenvolvimento de biobutanol e inauguraremos uma planta experimental na Grã-Bretanha em 2009, de modo que a tecnologia poderá ser comercializada dentro dos próximos cinco anos.
Qual o investimento da BP nos biocombustíveis?
Philip New: Cerca de US$ 500 milhões, sobretudo em pesquisa e desenvolvimento, e mais US$ 1 bilhão na construção de plantas de ensaio e fábricas convencionais para a produção comercial. Atualmente, estamos construindo uma usina no Brasil e outra na Grã-Bretanha. No futuro essas usinas deverão ser transformadas para a produção de biobutanol.
Na política alemã prepondera o ceticismo em relação ao biocombustível. Segundo planos do governo, a quota do produto no mercado deverá baixar. Será que a era dos biocombustíveis está chegando ao fim?
Philip New: Penso que é apenas um repouso passageiro. Neste momento, isso faz sentido porque o etanol só pode ser adicionado em quantidades limitadas quando se quer evitar os problemas de tolerância dos motores. Mas a médio prazo consideramos viável uma expansão significativa, que, no entanto, deverá ser acompanhada de regulamentos concretos quanto ao potencial de redução de gases de efeito estufa. Faço um apelo ao setor político de que não apenas a BP, mas toda a indústria de biocombustíveis necessita de regulamentos confiáveis.
A resistência é enorme. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) bem como o Banco Mundial (Bird) advertem para os riscos de um aumento dos preços dos alimentos devido ao uso de terras para o plantio de plantas com potencial energético. Qual a disponibilidade de terra necessária para concretizar sua visão sobre o futuro dos biocombustíveis?
Philip New: Hoje, cerca de 1% das terras agricultáveis no mundo são utilizadas para a produção de biocombustíveis. Segundo estimativas da ONU, esse número deverá subir para 4% até 2020. Como se verifica no Brasil, por exemplo, investimentos na produção de biocombustíveis também contribuem para um aumento significativo da produção de cereais. Isto é, aumento da produção de biocombustíveis não necessariamente significa maior necessidade de terras. Nós achamos que, seguindo uma estratégia correta, ainda dispomos de áreas suficientes para alimentar a população mundial crescente, sem conseqüências negativas para a produção de alimentos ou ração animal, tampouco para as florestas tropicais ou terras com elevado valor ambiental.
Não é eticamente condenável queimar alimentos enquanto muitas pessoas passam fome?
Philip New: Eu duvido que a o debate "prato ou tanque?" realmente seja um debate útil. A meu ver, a fome mundial não se deve à produção de biocombustíveis, mas sim a um fracasso político. Em escala mundial, temos alimentos necessários para alimentar a todos. Mas eles não chegam aos carentes. É um problema gigantesco, mas não um problema que se possa atribuir aos biocombustíveis. Nos últimos meses, os preços dos alimentos caíram de forma significativa ao passo que a produção de biocombustíveis permaneceu estável. Isso mostra que a ligação entre uma coisa e outra não é tão evidente quanto alguns críticos alegam.
As organizações ambientais têm um ponto de vista completamente diferente.
Philip New: Ninguém disse que tudo estava em ordem. Muitos defensores do meio ambiente criticam – e muito bem – que existem enormes problemas porque muitas vezes a expansão é feita sem levar em conta as condições locais e o clima. Porém, tampouco devemos exagerar com as críticas. Para muitas regiões pobres a bioenergia é uma oportunidade. Muitas pessoas que trabalham na ajuda ao desenvolvimento já me confirmaram isso. O setor proporciona uma renda aos agricultores e cria uma infraestrutura industrial. Se empregada de forma errada, a bioenergia também pode provocar danos. Mas se a utilizarmos de forma correta, poderá mudar o mundo para melhor.
Quem poderá controlar o sucesso dessa estratégia? Na Indonésia, por exemplo, se cortam florestas tropicais para colocar palmeiras para produção de óleo vegetal. As conseqüências são desastrosas, o balanço CO2 também.
Philip New: Não há justificativa para isso, a destruição de mata virgem realmente é uma catástrofe. Mas também quero relembrar que apenas 5% do óleo de palmeira são destinados à produção energética. O resto é comprado pela indústria alimentícia e cosmética. Mesmo assim, precisamos de critérios de sustentabilidade rígidos para a produção de bioenergia – não apenas para casos difíceis como a Indonésia. É tarefa dos políticos encontrar acordos e padrões internacionais vinculantes. Nós assinaríamos na hora. Aliás, já temos diretrizes próprias, que são muito rígidas.
Philip New, 46, é diretor global do ramo biocombustíveis da BP, grupo britânico no setor de energia. Concluiu curso superior em Oxford em 1983 e logo depois ingressou na BP. A BP é uma das maiores empresas do mundo e emprega mais de 100 mil pessoas. No primeiro semestre de 2008, faturou US$ 111 bilhões – a maior parte com energias convencionais como petróleo e gás natural.
FONTE
União da Indústria de Cana-de-açúcar
Links referenciados
Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentaçãowww.fao.org.br
União da Indústria de Cana-de-açúcarwww.unica.com.br
British Petroleumwww.bp.com
Berliner Zeitungwww.berlinonline.de/berliner-zeitung
OBanco Mundialwww.worldbank.org
Jornal Agrosoft
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