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Os Kulina (Madija): língua, trabalhos e estudos

artigos :: Por Editor em 31/12/2009 :: imprimir   pdf   enviar   celular


Os Kulina (Madija): língua, trabalhos e estudos: Os Kulina habitam desde o Peru até as proximidades do Rio Solimões
Créditos: Moacir Haverroth
Os Kulina habitam desde o Peru até as proximidades do Rio Solimões e se distribuem em diferentes Terras Indígenas (TI). No Acre, vivem, basicamente, na TI Alto Purus, nos municípios de Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus, em várias Terras Indígenas ao longo do Rio Envira, no Município de Feijó (TI Kulina do Igarapé do Pau, TI Jaminawa-Envira, TI Kulina do Rio Envira, além da TI Kaxinawá de Nova Olinda), e na TI Kaxinawá do Rio Humaitá. A língua Kulina, dependendo do autor, é classificada como sendo da família Aruak, subgrupo Arawá, ou, mais recentemente, da família Arawá, considerada, nesse caso, independente.



Quem conhece os grupos Aruak do Acre e sul do Amazonas (Manchineri, Ashaninka ou Kampa e Apurinã) e também os Kulina, logo percebe que, além dos aspectos culturais marcantemente particulares, há diferenças nítidas na forma de falar dos Kulina.

Madija (leia-se Madihá) é a autodenominação do grupo, que significa "gente", em contraposição a outros povos em geral, chamados de "cariú" ou "cariá". Há, hoje, duas gramáticas Kulina utilizadas nos trabalhos de alfabetização e na comunicação entre eles e os poucos conhecedores dessa língua que não são Kulina. A gramática mais conhecida foi desenvolvida originalmente entre os Kulina do Peru, com base no Summer Institute of Linguistics (SIL), entidade evangélica de origem norte-americana. No Brasil, foi adotada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ligado à Igreja Católica, e que foi a principal entidade a trabalhar com os Kulina no Acre até os anos noventa. Missionários do Cimi, com formação em antropologia e linguística, se distribuíram entre diversas aldeias Kulina do Purus e Envira. O "famoso" Abel O. Silva (Kanaú) desenvolveu trabalhos na área de alfabetização na aldeia Igarapé do Anjo, TI Kulina do Rio Envira, onde morou durante vários anos. Junto com Ruth F. Monserrat elaborou um dicionário Kulina-português-kulina, publicado em 1984, e um livro de gramática Kulina, específicos para o dialeto da aldeia Igarapé do Anjo com base no SIL.

Frank e Christiane Tiss, um casal de missionários do Conselho de Missão entre Índios (Comin), da Igreja Luterana, de origem alemã, vêm trabalhando, nos últimos anos, entre os Kulina do Amazonas, na região do Juruá, utilizando outra grafia para a língua Kulina. Diversas cartilhas já foram escritas nesse formato, substituindo algumas letras utilizadas pelo SIL (c, cc, j, tt, ss, hu, ds, qu, qqu, pp) por outras, representando, no entanto, os mesmos sons (k, kh, h, th, sh, w, z, k, kh, ph, respectivamente). Várias organizações não governamentais têm atuado em diferentes aldeias com trabalhos bastante pontuais.

Entre as instituições que atuam junto aos Kulina, como em qualquer outra etnia indígena, destacam-se a Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão federal que estabelece e executa a política indigenista no Brasil, e a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que, desde 1999, responde pelo subsistema de atenção à saúde indígena, articulado com o SUS. De acordo com o artigo 129 da constituição, cabe ao Ministério Público Federal (MPF) defender judicialmente os direitos e interesses das populações indígenas, porém, o direito de recorrer ao MPF não é muito conhecido entre elas. No entanto, a população em geral tende a associar questões indígenas apenas à Funai.

Alguns estudos antropológicos acadêmicos foram realizados entre os Kulina em diferentes rios, principalmente no Alto Purus. Destacam-se a pesquisa de doutorado de Donald Pollok, sobre etnomedicina, de 1985; um relatório de viagem do famoso antropólogo brasileiro, Eduardo Viveiros de Castro, de 1978; a dissertação de mestrado de Domingos A. B. da Silva sobre música e pessoalidade, de 1997; além de artigos, relatórios técnicos e trabalhos linguísticos diversos. Apesar dessas iniciativas, os Kulina continuam sendo um grupo relativamente pouco conhecido e estudado. Esse fato acaba gerando uma série de mal-entendidos e preconceitos, inclusive por parte dos povos indígenas circunvizinhos.

Embora seja comum a existência de conflitos interétnicos entre vizinhos em qualquer região do mundo, essas relações podem ser amenizadas na medida em que se amplia o conhecimento sobre o outro. Daí a importância de incentivar outros estudos e pesquisas sobre o grupo. Os próprios Kulina têm demonstrado interesse de que haja mais estudos sobre sua cultura, para que, dessa forma, possam ter mais visibilidade e contar com políticas públicas adequadas às suas características culturais.

AUTORIA

Moacir Haverroth
Pesquisador da Embrapa Acre
Biólogo
Doutor em saúde pública
E-mail: moacir.haverroth@cpafac.embrapa.br

Links referenciados

moacir.haverroth@cpafac.embrapa.br
moacir.haverroth@cpafac.embrapa.br

Conselho Indigenista Missionário
www.cimi.org.br

Conselho de Missão entre Índios
www.comin.org.br

Summer Institute of Linguistics
www.sil.org

Fundação Nacional de Saúde
www.funasa.gov.br

Fundação Nacional do Índio
www.funai.gov.br

Ministério Público Federal
www.mpu.gov.br

Moacir Haverroth
buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visual
izacv.jsp?id=K4707369J6

Embrapa Acre
www.cpafac.embrapa.br

Kulina
pib.socioambiental.org/pt/povo/kulina

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