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Diagnóstico da abacaxicultura do Extremo Sul da Bahia

artigos :: Por Editor em 29/12/2009 :: imprimir   pdf   enviar   celular

Segundo dados do IBGE de 2008, o Estado da Bahia é o quarto produtor brasileiro de abacaxi, com uma produção de 170 milhões de frutos, colhidos em uma área de 9.288 hectares. Em relação à Bahia, a mesorregião sul é a segunda maior produtora de abacaxi do Estado, produzindo 36 milhões de frutos em 2008, em uma área plantada de 1.743 ha. A microrregião de Porto Seguro, que engloba os municípios do Extremo Sul da Bahia, é responsável por 8% da produção do Estado e 36% da produção do Sul baiano.



Durante as visitas a campo e reunião com os produtores e técnicos, concluiu-se que na região predominam pequenos produtores, em sua maioria de base familiar, com áreas cultivadas de 0,5 a 2 ha com abacaxi. Embora as áreas sejam pequenas, parte dos produtores utilizam tratores para o seu preparo, fazendo aração e gradagem do solo e incorporando calcário, muitas vezes sem a realização da análise de solo. Foram identificados dois sistemas modais de cultivo: 1) cultivo com mecanização no preparo do solo, adubação e indução floral e 2) cultivo sem mecanização, apenas com adubação orgânica no plantio e nenhum outro insumo (adubo químico ou defensivo).

Boa parte do abacaxi produzido na região é originária da agricultura familiar, que comercializa seus produtos principalmente nas feiras livres ou para atravessadores que compram diretamente na propriedade. O quadro agrário da agricultura familiar na região se caracteriza por propriedades com área média variando de 10 a 20 ha. O cultivo do abacaxi se apresenta como uma cultura alternativa secundária na maioria das propriedades, onde predominam o cultivo de mandioca e de pasto para gado de finalidade mista (leite e carne).

Após a caracterização do sistema de produção em uso pelos agricultores, foram realizadas visitas técnicas a propriedades rurais objetivando o levantamento dos principais problemas de cultivo do abacaxi. O problema mais relevante observado e de pouco conhecimento dos produtores é a doença fusariose (gomose, resinose), que é propagada pelo vento, por mudas contaminadas e por meio de instrumentos como o facão. A variedade cultivada comercialmente na quase totalidade dos estabelecimentos é a Pérola, suscetível à fusariose. Segundo os produtores, a ocorrência da fusariose é mais intensa quando a floração ocorre nos meses mais frios. Outro agravante para a disseminação do fungo é que os seus sintomas nos frutos (presença de resina) apresentam alguma similaridade aos da broca-do-fruto, induzindo o agricultor a utilizar inseticidas recomendados para o controle da broca, que não têm eficiência alguma no controle da doença. Contribui muito para a disseminação da doença a falta de cuidados do agricultor na escolha e preparo do material de plantio. Em geral, o produtor não se preocupa em selecionar abacaxizais com baixa incidência da doença como fonte de mudas para o seu plantio, nem realiza a cura e seleção visual das mudas adquiridas, visando descartar o máximo de mudas contaminadas antes do plantio.

Além disso, plantas com sintomas da doença não são descartadas durante a fase vegetativa, aumentando o potencial de contaminação dos frutos. Foi identificado um produtor em Eunápolis cultivando as variedades de abacaxi Imperial, resistente à fusariose e lançada pela Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, e a Gomo de Mel, lançada pelo Instituto Agronômico (IAC) de Campinas, porém susceptível à fusariose. Os frutos das duas variedades estão sendo comercializados no mercado de São Paulo, com boa aceitação pelos consumidores.

Além disso, unidades demonstrativas com o abacaxi Imperial estão sendo conduzidas no projeto de assentamento São Miguel, em Santa Cruz de Cabrália, e no distrito de Sapirara, em Porto Seguro. Essas ações visam principalmente avaliar o comportamento desta cultivar sob condições locais com perspectivas de tornar-se uma importante alternativa de cultivo, com a grande vantagem de eliminação de perdas de plantas e frutos devido à sua resistência genética à fusariose.

Em relação às pragas, o principal problema observado foi a cochonilha, responsável inclusive pela transmissão da murcha causada por vírus. Além disso, foi identificada a broca dos frutos, com danos visíveis no campo. O adulto deste inseto é uma pequena borboleta, que coloca seus ovos nas inflorescências, originando as larvas que irão se alimentar das flores e dos frutos jovens, afetando a sua qualidade para comercialização.

Em relação às práticas de cultivo, os agricultores não separam as mudas por tamanho de forma a padronizar os talhões de plantio e prever induções artificiais de florescimento escalonadas. O uso de formulações prontas para adubação do abacaxi é uma prática comum entre os agricultores na região, que normalmente não se baseiam na análise de solo para efetuar essa prática. As formulações NPK 4-14-8, 10-10-10, 20-05-20 e 11-30-17 são as mais encontradas no comércio e também utilizadas para a abacaxicultura, sendo que a maioria dos agricultores faz apenas adubação na cova de plantio com NPK 4-14-8. Nenhuma dessas formulações atende plenamente às necessidades da planta de abacaxi de forma equilibrada. Em campo foram observados sintomas de deficiência de macronutrientes, manifestada em plantas que se apresentavam amareladas e raquíticas.

A maioria dos agricultores familiares não realiza a indução floral e os frutos são colhidos na safra, concentrada no mês de dezembro. O abacaxi regional é plantado sem irrigação, em quase todos os meses do ano, pois a região apresenta chuvas bem distribuídas, em torno de 1.800 mm anuais. Plantios realizados no segundo semestre normalmente têm apresentado alto índice de florações naturais durante o inverno do ano seguinte, determinando a concentração da safra no mês de dezembro, com preços do fruto pouco remuneradores para o produtor. Estudos de mercado realizados nos municípios turísticos de Santa Cruz Cabrália e Porto Seguro evidenciaram uma grande demanda no final de dezembro (Ano Novo), janeiro e fevereiro, coincidindo estes dois últimos meses com o período de entressafra.

AUTORIA

Arlene Maria Gomes Oliveira
Carlos Estevão Leite Cardoso
Davi Theodoro Junghans
Domingo Haroldo Reinhardt
Nilton Fritzons Sanches
Pesquisadores da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical
Caixa Postal 007 - CEP 44380-000
Cruz das Almas/BA

Getúlio Augusto Pinto da Cunha
José Renato Santos Cabral
Luiz Francisco da Silva Souza
Pesquisadores aposentados da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical
Caixa Postal 007 - CEP 44380-000
Cruz das Almas/BA

Links referenciados

Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical
www.cnpmf.embrapa.br

Instituto Agronômico
www.iac.sp.gov.br

IBGE
www.ibge.gov.br

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