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Quando a ciência encanta o cidadão comum

artigos :: Por Soraya Pereira em 22/12/2009 :: imprimir   pdf   enviar   celular


Quando a ciência encanta o cidadão comum : Adimirável Mundo Novo, escrito por Aldous Huxley em 1931
Créditos: Divulgação
Tem coisa mais chata que ciência? Tem! Um texto mal escrito sobre ciência. E não tem fórmula para fazer um bom texto nessa área. O pobre do escritor tem que experimentar aqui e ali e torcer para dar certo. E quando dá, corre o risco de ser tachado de sensacionalista. Pode?! Pode!



Entre erros e acertos, a gente percebe que algumas coisas funcionam. Por exemplo, mostrar como o tema científico interfere no dia-a-dia das pessoas. A literatura faz isso com maestria. Com um olho no leitor, promove o diálogo entre o cidadão e o tema por meio de uma trama de analogias, metáforas, contextualizações, resgates históricos e abordagens interdisciplinares que provocam a reflexão.

É de Aldous Huxley (1894-1963), escritor inglês, um dos melhores exemplos: Admirável Mundo Novo (Brave New World), escrito em 1932, até hoje desdobra-se em novas leituras para o cinema, a música e a literatura, nos colocando com o pé atrás diante de alguns preceitos científicos.

O livro trata de uma sociedade num futuro distante que é pré-condicionada biológica e psicologicamente para viver em harmonia. Leis e regras rígidas dividem as pessoas em castas para fins sociais específicos e assim toda a engrenagem social, política e econômica funciona como um reloginho.

Em tese! Como tudo na natureza, sempre há algo que escapa ao controle. Por isso, nos casos de crise existencial e similares, a solução é a segregação e/ou ingestão do soma, uma droga entendida como sem efeitos colaterais, que restaura a harmonia e o equilíbrio para o bem de toda a comunidade. Um livro que deveria estar na estante de todas as casas.

Huxley tinha no seu momento histórico um cenário de guerras, ditaduras, manipulações da imprensa e da propaganda, conflitos entre ideais comunistas, capitalistas, nazistas e fascistas e tudo isso envolto num franco avanço técnico-científico que influenciava o sistema de produção. Mais tarde, em 1959, o próprio escritor publicou Regresso ao Admirável Mundo Novo, um ensaio que discute as muitas predições do romance que estavam a realizar-se com o progresso científico e a manipulação das vontades humanas bem antes do tempo imaginado por ele.

Um estudo de Ana Maria Sanches Mora, física formada pela Universidad Nacional Autónoma de México e profissional dedicada a divulgação científica, mostra que bons textos de divulgação científica apresentam algumas das características a seguir: base na história ou na tradição, humor, entrelaçamento entre arte e ciência, uso de analogias e metáforas, dimensão cotidiana, referência a cultura popular, reconhecimento de erros humanos e dessacralização da ciência.

Segundo ela, o uso de um ou vários desses recursos de forma criativa, juntamente com um bom texto, contribuem para repercutir o tema científico em diferentes públicos e perpetuá-lo ao longo do tempo. A divulgação científica vai além da comunicação de ideias. Ela precisa causar nas pessoas uma emoção efetiva ou estética e isso tem muito a ver com a maneira como o leitor é envolvido no enredo.

Monteiro Lobato colocava a criança como protagonista das histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo. Foi um dos primeiros a falar sobre ciência para o público infanto-juvenil brasileiro e um dos mais influentes escritores do século XX. Se as obras são paradidáticas ou literárias isso é outra questão. O mérito inquestionável é que ele cativou um público negligenciado até então e construiu uma bela ponte entre ciência, cultura e cidadania.

O fato é que aqueles que estão à margem do conhecimento científico ficam excluídos de uma das maiores conquistas da humanidade. Além disso, o conhecimento gerado pela ciência atinge a todos e por isso é um tema importante demais para ser confiado a poucos. Unir arte, literatura, comunicação e ciência pode ser um caminho para colocar a ciência no universo de entendimento do cidadão comum.

AUTORIA

Soraya Pereira
Jornalista da Embrapa Agroindústria de Alimentos

Links referenciados

Universidad Nacional Autónoma de México
www.unam.mx

Embrapa Agroindústria de Alimentos
www.ctaa.embrapa.br

Sítio do Pica Pau Amarelo
pt.wikipedia.org/wiki/Sítio_do_Picapau_
Amarelo

Admirável Mundo Novo
pt.wikipedia.org/wiki/Admirável_Mundo_N
ovo

Monteiro Lobato
pt.wikipedia.org/wiki/Monteiro_Lobato

Soraya Pereira
soraya@ctaa.embrapa.br

Aldous Huxley
pt.wikipedia.org/wiki/Aldous_Huxley

UNIR
www.unir.br

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