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Comunicação e ciência: estratégias para consumo consciente de alimentos

artigos :: Por Soraya Pereira em 20/11/2009 :: imprimir   pdf   enviar   celular

A partir da segunda metade do século passado, aprimoraram-se no mundo as leis, a defesa e a informação para os consumidores. No Brasil, a defesa e a proteção da saúde individual e coletiva, no tocante a alimentos, desde a sua obtenção até o seu consumo, são reguladas em todo o território nacional, por meio do Decreto-Lei 986, de 21/10/1969. Nele são instituídas as Normas Básicas sobre Alimentos, incluindo a sua rotulagem.



Com relação aos produtos industrializados ou não, a maioria dos consumidores no Brasil vem, dia após dia, sendo sensibilizada em relação aos seus direitos na aquisição de produtos ou serviços. Os direitos do consumidor são garantidos pelo Código de Defesa do Consumidor - Lei n° 8.078, de 11/09/1990. Esta Lei dispõe sobre a proteção do consumidor e seus direitos, que inclui a proteção de sua vida, saúde e segurança contra riscos causados por produtos e serviços considerados perigosos, e a efetiva prevenção e reparação dos danos causados.

Quem cuida da promoção e proteção da saúde da população

Existem diversas iniciativas no Brasil para prover informações sobre os alimentos. O Ministério da Saúde (MS) coloca à disposição dos consumidores um serviço telefônico gratuito onde é possível obter informações nutricionais que devem constar nos rótulos de alimentos, como proceder para reconhecer alimentos e orientações sobre os alimentos para fins especiais. A partir de 1999, a promoção e a proteção da saúde da população vêm sendo realizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa, vinculada ao MS, que mantém em seu portal um canal para falar com o cidadão sobre precauções ao consumir alimentos e esclarecer quais são os cuidados a serem observados para prevenir doenças de origem alimentar. Existem outras fontes de informações não institucionais aos consumidores, porém estas encontram-se dispersas em artigos de jornais, páginas na Internet, livros ou matérias de TV.

Tendências ligadas aos alimentos e saúde da população

Nos últimos anos, as escolhas dos consumidores em escala mundial tendem a orientar-se para alimentos mais saudáveis, mais nutritivos, mais saborosos e produzidos segundo métodos sustentáveis e éticos.

A Organização Pan-Americana da Saúde - OPAS em registro do World Economic Forum / PAHO (2009), alerta sobre a crescente cobrança de saúde pela sociedade. Saúde e bem-estar são preocupações de todos, no entanto, os nossos estilos de vida, na forma de comer e beber, o sedentarismo e as tensões diárias na nossa casa e no ambiente de trabalho estão convergindo para um aumento nos gastos com saúde.

No Brasil, segundo a mesma fonte, nos próximos seis anos, três em cada quatro mulheres terão sobrepeso, mortes por diabetes aumentarão em 82% e o país terá perdido cumulativamente 49 bilhões de dólares devido a doenças crônicas. Os hábitos de vida e de alimentação, nas últimas décadas, tem contribuído bastante para esse quadro. Mais do que nunca os fast food entraram na vida dos brasileiros e as dietas estão mais centradas em gorduras, açúcares e sais. Soma-se a isto o baixo consumo de frutas e hortaliças, o sedentarismo e a perda do hábito da alimentação no lar em função da vida "moderna". Um dos reflexos mais nítidos dessa transformação é o sobrepeso ou seja a obesidade.

Esta previsão alarmante é semelhante em todo o mundo. Mas esta situação pode ser evitada com uma alimentação saudável, associada ao exercício e abstinência ao uso nocivo do álcool, generalizado na população jovem e adulta, e do fumo que tem contribuído significativamente para as epidemias de doenças cardíacas, câncer, lesões e violências. Estes últimos fatores são determinantes do crescimento econômico. Os custos para os governos, empresas privadas e as famílias estão aumentando provocando a insustentabilidade de políticas.

A camada da população mais pobre e menos escolarizada está enfrentando o problema com maior intensidade. Esta imagem preocupante é semelhante em toda a América Latina e no mundo. As causas suscitadoras da presente situação humana incluem escolhas pessoais, contextos culturais e uma gama de factores socioeconômicos, ambientais e políticos, que se encontram em grande parte fora do setor saúde, embora o setor da saúde desempenhe um papel crítico na avaliação do estado de saúde e dos riscos desta sobre a população, o desenvolvimento políticas e a garantia da qualidade dos serviços oferecidos.

Cuidados pessoais: alimentação e atividade física

A alimentação associada a atividade física e prevenção no uso de fumo e bebidas alcoólicas são elementos fundamentais para uma vida saudável. Quando bem nutrido, o corpo desenvolve melhor suas funções vitais, a expectativa de vida aumenta e os investimentos em recursos médico/ambulatoriais para o atendimento da população podem ser drasticamente reduzidos. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, as pessoas precisam incorporar alimentos mais nutritivos e saudáveis ao seu cardápio.

A qualidade na alimentação é a mola mestra desta transformação no viés consumo e na legislação brasileira. Esta tendência requer que os aspectos fundamentais da segurança dos alimentos e da confiança do público passem por uma abordagem global e integrada ao longo de toda a cadeia alimentar, da produção à mesa do consumidor, incluindo-se nesse processo a transparência de todas as ações e pareceres, e a prestação do máximo de informação, de forma clara e compreensível, permitindo aos consumidores ter a noção dos cuidados para evitar doenças através da contaminação de alimentos a serem consumidos. Entretanto, há indícios de que partes destas condições não estão sendo atendidas. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), as doenças transmitidas por alimentos (toxinfecções) são responsáveis por 1,5 bilhão de casos de diarréia e por 3 milhões de mortes de crianças menores de 5 anos em todo o mundo.

Informação: fator determinante para o exercício da cidadania

Segundo o Livro Branco da Comunidade Européia, de 2004, a falta de informação sobre alimentos afeta em muito maior proporção os consumidores socialmente excluídos e os vulneráveis. Esta situação não é diferente da encontrada no Brasil, onde existe uma inadequação da linguagem dos especialistas para os consumidores, dificuldade de acesso à informação por parte do consumidor, além de uma forte dispersão de informações nas diversas fontes. Nesse sentido, o consumidor acessa pouco ou tem pouco acesso às fontes de informações existentes e tem dúvidas ao comprar produtos. Os termos existentes nos rótulos, muitas vezes, mais confundem que esclarecem e o consumidor acaba por não saber o que está levando para casa.

As iniciativas de levar a informação ao público, conforme estudos a respeito da eficácia da rotulagem nutricional e programas de educação nutricional, junto ao consumidor de alimentos, levam a concluir que a maioria das pessoas não lê rótulos, se lê, não entende, e, se entende, tem dificuldades em incorporar a informação ao cotidiano. Saber se alimentar e comer o melhor está cada vez mais difícil para a população, já que esta não entende a comunicação própria, sendo ainda bombardeada pela propaganda consumista.

Contexto a ser observado na transformação da saúde

Segundo o World Economic Forum / PAHO (2009), existem questões que devem ser trabalhadas a respeito do estabelecimento de estratégias que venham a impactar o crescimento econômico e a saúde da população. Por isso, o órgão propõe uma ação multilateral para abordar o problema. Ressalta, ainda sobre a importância de se ter claro, alguns pontos, tais como:

1) quem são as partes interessadas e os potenciais papéis dos setores público e privado e da sociedade civil, como parceiros, na construção e operação de estratégias de intervenção ligadas a prevenção de doenças crônicas e promoção da saúde e quais são as dificuldades ou entraves ao efetivo trabalho em conjunto;

2) em que escala da agenda política está a prevenção de doenças crônicas e a promoção da saúde;

3) o que existe de ações/ soluções de baixo custo e alto retorno para melhorar a saúde da população;

3) quais são os avanços necessários na cadeia alimentar, na produção, no atendimento de saúde, no aumentando do acesso a serviços de qualidade, nos transportes, na educação, na informação e meios de comunicação/novas aplicações de tecnologias;

4) quais plataformas/mecanismos seriam necessários para assegurar a aplicação de propostas em nível nacional e regional.

Projeto Além do Rótulo: a proposta de informação para a educação alimentar

Diante do contexto apresentado, a proposta de oferta de um serviço de informação estruturada no Projeto Além do Rótulo, liderado pela Embrapa Agroindústria de Alimentos (Rio de Janeiro/RJ), consiste em levar a informação além da cadeia de produtiva, isto é, incluir o consumidor como o principal interessado nas políticas ligadas a alimentos e saúde, desenvolvidas pelas instituições públicas e privadas voltadas a produção, comercialização, pesquisa e desenvolvimento e legislação/regulamentação.

O etapa piloto reuniu informações nutricionais sobre mais de 120 alimentos in natura (frutas, legumes e verduras) ressaltando aspectos como qualidade nutricional, dicas de compra, higienização, armazenamento, preparo e consumo. As informações foram levantadas por um grupo de nutricionistas ligadas à Universidade Federal do Rio de Janeiro que buscaram na literatura científica dados confiáveis. Outra preocupação era ter um leque de alimentos de representativo do interesse dos consumidores de acordo com sua cultura e hábitos alimentares.

A etapa seguinte se deu na Embrapa Agroindústria de Alimentos onde a equipe de comunicação focou a questão da linguagem acessível ao público leigo, a clareza e a objetividade do conteúdo. O objetivo era tornar a informação compreensível para o mais variado público em função de sua escolaridade, idade e faixa social.

Formatado o conteúdo, entraram em cena os especialistas da área de informática que em parceria com a Embrapa Informática Agropecuária (Campinas/SP) e a Universidade Católica de Brasília construíram uma estratégia de exposição do conteúdo a partir de ferramentas como a árvore do conhecimento. A ferramenta permite organizar o conteúdo em inúmeras caixinhas, formando um mosaico hierárquico de informações que podem ser consultado de acordo com o interesse do usuário.

Para garantir o maior acesso a informação, a equipe do projeto criou um totem para ser acessado em supermercados. Um protótipo foi testado em feiras e eventos e obteve grande receptividade do consumidor. No totem, o consumidor toca na tela para abrir a informação que lhe interessa.

Nos últimos dois anos, inúmeras reuniões tem acontecido com instituições públicas e privadas para consolidar uma estratégia capaz de tornar o totem uma realidade em redes de supermercados, telecentros, postos de saúde e escolas.

Uma dessas discussões aconteceu com a Associação Brasileira de Supermercados – ABRAS e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que estão mediando a ação de lançamento do serviço junto a uma rede supermercadista prevista para o final de 2009 em Brasília.

A tendência é de que isso seja concretizado em breve em virtude de algumas demandas identificadas: o consumidor está ávido por informações sobre alimentos e saúde; os governos precisam reduzir despesas com saúde e garantir melhor qualidade de vida à população; a cadeia produtiva de alimentos, de antes da porteira até a mesa do consumidor, tem sido pressionada para produzir e ofertar alimentos de melhor qualidade, seguros e produzidos em sistemas sustentáveis.

Enquanto isso, novos conteúdos são agregados à árvore do conhecimento, como por exemplo, questões relacionadas a alertas sobre contaminações, agrotóxicos, recolhimento de produtos, surtos e fraudes; práticas de produção; um observatório de ações de governo relacionadas a alimentos (acordos, consultas públicas, direitos do consumidor, globalização da saúde, iniciativas governamentais unilaterais); indicação de um guia de saúde ligado à alimentação e atividade física preconizado pelo Ministério da Saúde; hábitos alimentares e crendices populares.

AUTORIA

Fénelon do Nascimento Neto
Mestre em Extensão Rural
Pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos
E-mail: fenelon@ctaa.embrapa.br

Links referenciados

Agência Nacional de Vigilância Sanitária
www.anvisa.gov.br

Associação Brasileira de Supermercados
www.abrasnet.com.br

Universidade Federal do Rio de Janeiro
www.ufrj.br

Organização Pan-Americana da Saúde
www.paho.org/bra

Livro Branco da Comunidade Européia
europa.eu/documentation/official-docs/wh
ite-papers/index_pt.htm

Embrapa Agroindústria de Alimentos
www.ctaa.embrapa.br

Universidade Católica de Brasília
www.ucb.br

Embrapa Informática Agropecuária
www.cnptia.embrapa.br

Código de Defesa do Consumidor
www.idec.org.br/cdc.asp

Organização Mundial de Saúde
www.who.int

Fénelon do Nascimento Neto
buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visual
izacv.jsp?id=K4709087T7

Projeto Além do Rótulo
www.alemdorotulo.com.br

fenelon@ctaa.embrapa.br
fenelon@ctaa.embrapa.br

Ministério da Saúde
www.saude.gov.br

Decreto-Lei 986
www.planalto.gov.br/ccivil/Decreto-Lei/D
el0986.htm

Lei n° 8.078
www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078
.htm

Embrapa
www.embrapa.br

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